Laguna de los Dientes » Laguna Martillo
3º dia - 23/01/2024
O dia 23 seria a despedida do trecho sul da Dientes, cuja porta de saída é o ventoso Paso Ventarrón, a 716 metros de altitude. Contornamos a margem norte da Laguna de los Dientes, entramos num vale junto à margem noroeste daquela laguna e, quase como num salto quântico, já estávamos às margens da Laguna Escondida, arrodeada pelo Cordón de los Dientes. A sensação de isolamento é marcante, e a margem sul seria um belo lugar para se acampar, com a porta da barraca como moldura para as montanhas ao norte, não fossem as bestas devassas os ventos.
Logo em seguida, el sendero se afasta da margem sul e, aí sim, começa a grande atração do dia: a subida ao Paso Ventarrón. Depois de deixar uns bosques aqui e outros ali pra trás, já é possível ver o passo lá longe, no alto da crista montanhosa. A subida é tranquila e não tem como se enganar de caminho, pois todos os caminhos levam ao Paso.
A cada passo à frente, esperávamos a primeira bofetada do vento, que não vinha. Mais um passo e nada de vento. Oferecíamos todas as faces ao vento e ele se recusava a se manifestar. O Paso ali e o vento alhures. Até que chegamos ao Paso - veja, Ventarrón, de vento - e… nada de vento, nem uma brisa, nem um farfalhar do éter e dos neutrinos à nossa volta. Nada! Calmaria total! Zero absoluto! Que decepção!!
O Ventarrón sim, é um passo na verdadeira acepção da palavra, pois separa as terras baixas de um lado das terras baixas do outro lado. Do “ex-ventoso” passo é possível ver, ao sul, trechos do Lago e Bahia Windhond e, más allá, a costa norte das Ilhas Wollaston, ao sul das quais se encontra o famoso Cabo Horn. A oeste, uma paisagem lindíssima de montanhas e lagunas. E a leste, de onde viemos, toda a imponente cadeia de Los Dientes, inclusive o passo homônimo.
Enfim, descansados e alimentados, partimos. Existe uma excentricidade no Paso Ventarrón: pra descer, há que subir(1). Sobe-se por alguns minutos a encosta norte para, aí sim, começar efetivamente a descida até o vale repleto de lagos antes do Paso Guerrico. E é uma descida, digamos assim, quilométrica, pedregosa, exposta.
Mas antes de continuarmos, permitam-me fazer um ato de justiça com o Paso que já ficou pra trás: a descida foi toda acompanhada por um vento com personalidade, com notas medianas mas consistentes de agressividade. Porém, muito aquém da fama eólica do Ventarrón: com muito esforço e boa vontade, um vento a meio caminho de um à la Paso Australia.
A trilha desce até os lagos, gradualmente vira à esquerda, contorna-os ao longo da base da encosta norte do Paso Guerrico e… por um lapso de atenção, pegamos um caminho mais à esquerda, que sobe a encosta ziguezagueando em meio a um bosque, contorna um pequeno lago e - surpresa! - encontra, à direita, a poucos passos do Paso, a trilha oficial que vem direto dos lagos lá embaixo. Provavelmente, bem mais curto do que aquele que pegamos. Coisas da vida de um trilheiro.
A partir do Paso Guerrico, a 546 metros de altitude, a trilha é um longo e reto declive que passa pela Laguna Hermosa e continua até a Laguna Martillo, local da nossa terceira noite de uma caminhada pra lá de fascinante. Montamos as barracas no meio de um bosque, às margens de um riacho que deságua na margem sul da laguna: lugar pitoresco; diria até bucólico. Um pouco depois, chegaram os nossos companheiros chilenos.
A noite veio, e com ela um vento que remoinhava de todas as maneiras que há de remoinhar: era possível ouvi-lo começando lá longe, se avolumar no meio do caminho, se aproximar e, numa orgia cacofônica, desabar sobre as barracas. E olha que estávamos em meio às árvores.
- Lembrei-me da música The Carpet Crawler, do Genesis: We've got to get in to get out.