Laguna de los Guanacos » Puerto Williams
5º dia - 25/01/2024
Enfim, o último dia. Que como todo último dia, é meio sem graça. E o último trecho não ficou nada a dever a essa ausência de graça. É tocar pra baixo em uma trilha que atravessa uma floresta com a aparência de ter sido atingida por um furacão, por conta de tantas árvores derrubadas, às vezes umas sobre as outras, o que torna a caminhada cansativa e demorada. Não há nenhuma marcação, mas também nenhuma dificuldade de orientação.
A trilha desce o tempo todo pela margem direita do rio, que leva as águas da Laguna de los Guanacos e outras ao longo do caminho para o Canal de Beagle. Umas duas horas de caminhada e a senda gradualmente se afasta do rio, mas ainda dentro do bosque. Até que as árvores dão lugar a uma área bem desmatada pela ação humana, lugar de capoeiras e pasto, na qual em muitos pontos não há sinal de trilha nenhuma: ou segue o GPS ou avança, para, procura, volta, refaz o rumo ou vai na grosseria e traça uma reta no sentido norte até encontrar a estrada. Além disso, é um terreno com um tanto de pontos com barro acumulado, quase um charco, com o qual precisamos tomar cuidado pra não afundar o pé até a canela.
Levamos em torno de quatro horas para percorrer parcos quatro quilômetros e pouco entre o acampamento, pouco abaixo da Laguna de los Guanacos, e a estrada de terra (Y-905), que margeia o Canal de Beagle e liga Puerto Navarino, no extremo oeste da ilha, a Puerto Williams.
Mas como tudo acaba um dia, chegamos na estrada. E nos jogamos no acostamento pr’um descanso merecido e pra saborear a felicidade por completar a Dientes de Navarino. Ficamos tacitamente em silêncio: a verdadeira satisfação pela realização de um desejo é pessoal e silenciosa.
Do ponto em que a Dientes desemboca na estrada até a cidade mais austral do mundo são uns 7 quilômetros. Ensaiamos uma tentativa de caminhada até lá, mas o cansaço e a falta de ânimo não falavam: berravam. Paramos na primeira sombra e esperamos por uma carona. O que não demorou muito. E nada melhor que uma carona na caçamba de uma camionete imunda depois de ter caminhado até os confins do mundo e voltado pra contar a história.
Os chilenos, só os encontramos mais tarde, já na pousada. Isso era uma quinta. Até sábado, rolaram umas boas cervejas em nome da confraternização latino-americana. No domingo, eles pegaram o barco para Punta Arenas; e nós, Luchesi e eu, o avião pr'aquela cidade na segunda, 29 de janeiro.
Em tempo: se na ida para Puerto Williams, de barco, pudemos apreciar as geleiras descendo dos altos da Cordilheira Darwin até tocarem as águas do Canal de Beagle, na volta, de avião, pudemos ver as montanhas de onde desciam aquelas geleiras. Portanto, fica a dica: vá de barco e volte de avião, ou vice-versa. Outra dica: na volta, sentamos no lado direito do avião.