Laguna del Salto » Laguna de los Dientes
2º dia - 22/01/2024
O segundo dia seria o dia dos passos. Três numa sequência: Paso Primero, Paso Australia e Paso de los Dientes. O caminho começa um pouco à direita da queda d’água, numa espécie de escadaria de pedras em linha reta, para, ao final, dobrar à esquerda e chegar a um pequeno planalto por onde corre o rio que abastece a cascata da Laguna del Salto. Após uma ampla e ascendente curva para direita, a trilha alcança a base e margeia uma pequena queda d’água na forma de Z para, enfim, chegar ao Paso Primero.
A região que se descortina é um amplo planalto com a face norte do Cordón de los Dientes ao fundo, os famosos picos que dão nome à trilha. Sinceramente, na real acepção da palavra, considerando o que realmente é um passo, eu não diria que aquele seria um digno exemplar da espécie: um passo pressupõe uma passagem elevada que liga dois lados de terrenos de menor altitude, o que não era o caso. Mas enfim… estávamos no primeiro passo "oficial" da Dientes, localizado a 709 metros de altitude.
A trilha continua no sentido sudeste através de uma espécie de um amplo corredor, com altos picos e elevações em ambos os lados, sobe uma pequena encosta e estávamos no Paso Australia (776 metros de altitude), marcado com um enorme monte de pedras, uma baliza de madeira (hito 14) e vento. Céus…como ventava!! Se era assim no Paso Australia, imagina no Ventarrón, que tem a fama dos caminhantes serem recebidos de braços abertos pelo deus grego Éolo.
Apesar de ser um lugar interessante, não estava nem um pouco confortável ficar no Paso Australia com todo aquele vento. Foi o tempo suficiente pra tirar umas fotos pra registro e partir. E bastou descer alguns metros pra não se ter mais notícia do vento. A trilha desce em diagonal pra direita, atravessa uns trechos de neve e contorna, algumas curvas de nível acima, a margem sudoeste da Laguna del Paso.
Desde o Paso Austrália já é possível ver o lado leste do Paso de los Dientes, logo ali na frente, numa espécie de portão para o tão esperado trecho sul da Dientes, ao longo do qual se caminha, até o Paso Ventarrón, aos pés dos famosos Dientes de Navarino. E quando se chega ao Paso, vê-se que não foi uma vã expectativa. O que se abre diante dos olhos é extasiante: duas enormes colunatas rochosas a formar o Portal do Paraíso com a fonte da eterna juventude entre elas e Xangri-lá ao fundo. Ilusão mítica à parte: dois picos, um à direita e outro à esquerda, com a Laguna del Picocho entre eles e as terras do sul da Isla Navarino ao fundo. Mas a bela impressão era impactante o suficiente para fazer as lágrimas subirem aos olhos.
Numa espécie de anfiteatro, a senda percorre a margem leste da fonte da eterna juventude laguna, desce abruptamente para um outro anfiteatro - menor que o primeiro e também ocupado por um pequeno lago, que é contornado pela margem leste - e chega numa bifurcação: reto, vai-se para o Lago Windhond; à direita, continua-se na Dientes. Deste ponto, vê-se, à esquerda, o Cume Bettinelli, por onde passa a trilha para aquele Lago, e, aos seus pés, três lagunas(1) com as margens completamente devastadas pelos castores. Esses animais, originais da América do Norte, foram introduzidos há décadas na região, e como lá embaixo não tem predadores naturais, se espalharam e se tornaram um grave problema ambiental, que se pode testemunhar ao longo de toda a Dientes.
Pouco mais de um quilômetro depois, chegamos à Laguna de los Dientes, a 509 metros de altitude. Por uma questão de distância a percorrer no terceiro dia, a Laguna Escondida, um quilômetro e meio à frente, é o melhor lugar para passar a segunda noite. O problema é que essa laguna deve seu nome ao fato de ficar num anfiteatro fechado por todos os lados exceto o sul, o que faz do lugar uma espécie de armadilha eólica: os ventos entram naquele buraco, se chocam contra os morros e se transformam em verdadeiras bestas devassas que turbilhonam o sono de quem por lá acampado estiver. Pensando melhor, quedamo-nos mesmo sob as árvores da los Dientes. Por precaução, entende?!
Pouco tempo depois, chegaram os chilenos, que acamparam há poucas árvores das nossas barracas.
- Conhecidas como as lagunas de los castores.